Os números da universidade

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Nas greves brasileiras, números sempre serviram para manipulação política, de lado a lado. O que ocorre hoje com a greve das universidades federais é típico desse processo anacrônico. A exemplo dos sete cegos e o elefante, o Ministério da educação e dos Desportos (MEC) apresenta distorções salariais na universidade como regra. E as entidades de classe acenam com as injustiças, como se fossem generalizadas. Os próprios professores ficam perdidos nesse tiroteio.
Depois de meses de greve, a realidade é que ninguém conhece no certo os números exatos da folha salarial das universidades. Sem os números, como legitimar acordos racionais?

Constatando isso, um professor de física da Universidade Federal de Mato Grosso decidiu proceder a um levantamento estatístico sobre os salários locais. Levantou todos os dados da folha, alimentou um programa de estatística e tirou suas conclusões. E, surpreendentemente, deu-se conta de que todos - lideranças sindicais, professores em assembléia, departamento pessoal da universidade - estavam sendo apresentados pela primeira vez à sua própria realidade, não apenas no Mato Grosso, mas em todo país. O setor que trafega nos limites do conhecimento não dispõe de conhecimento organizado sobre sua própria realidade.
Sua pesquisa foi sobre a distribuição da remuneração bruta por nível de escolaridade, abrangendo os docentes ativos em 40 horas e em dedicação exclusiva.
Sua universidade possui 96 doutores, 376 mestres, 354 especializados (superior completo com especialização), 129 graduados (superior completo ou habilitação legal equivalente), 2 com superior incompleto e 6 técnico - professores (segundo grau completo).
A conclusão é uma estrutura salarial que é uma bagunça. Quando se toma o geral, os salários são baixos levando-se em conta tempo de estudo e comparação com outros segmentos do serviço público. Quando se analisa internamente, há uma flagrante distorção, beneficiando professores com menos titulação.
Algumas das conclusões do trabalho:
(1) - 50% dos doutores recebem entre R$ 3200 e 3800. 25%, entre R$3.800 e R$5.000. E 25%, entre R$ 2.200 e R$ 3.200. Há três marajás ( entre 96 doutores ), com salários entre R$ 7.000 e R$ 12 mil, conquistados em ações judiciais.
(2) - No segundo degrau da escala, 50% dos mestres ganham entre R$ 1.800 e R$ 3.000. Mas os 25% da faixa superior da pirâmide dos mestres ganham mais que 75% dos doutores. Há seis marajás ( em 376 professores) ganhando entre R$ 7.000 e R$ 9.500 por conta de ações judiciais.
(3) - 50% dos especialistas ganham entre R$ 1.500 e RS 2.800.Os 25% do topo da pirâmide ganham o mesmo que o topo da pirâmide dos mestres e doutores. Há cerca de 15 marajás ( em 354 professores),com salários entre R$ 7.000 e 12 mil.
(4) - 50% dos graduados ganham entre R$ 1.000 e R$ 1.500. Mas os 25% melhor aquinhoados ganham mais do que 50% dos especialistas. Há três marajás ( em 129 ) ganhando entre R$ 5.000 e R$ 10.000.
Questões básicas
Duas questões se colocam, na análise desses números. A primeira é a importância de se recuperar os salários da universidade pública, como maneira de preservá-la. A segunda é que essa recuperação não pode ser em linha. Cabe ao MEC conseguir mais recursos. Mas aos setores conseqüentes da universidade cabe definir um modelo que elimine de vez essas distorções e institua a meritocracia e a titulação na definição dos salários.

Luís Nassif, Folha de São Paulo, 08/06/1998, p.2.3.