IMPÉRIO SEM FRONTEIRAS
Como surgiu e se mantém firme a maior 
 potência que o mundo conheceu


   

             O escritor inglês Rudyard Kipling torceu o nariz ao visitar os Estados Unidos no começo do século. "É um arquipélago de tribos selvagens prestes a se digladiarem pela divisão dos parcos recursos naturais", sentenciou. Seu colega de profissão e compatriota H.G. Wells, durante uma audiência na Casa Branca com o presidente Theodore Roosevelt, em 1905, também manifestou preocupação com o futuro da ex-colônia.
              "São os Estados Unidos uma criança gigante ou uma futilidade gigante?", perguntou na ocasião. Essas dúvidas e avaliações pessimistas já não fazem o menor sentido, mas as troças dão a dimensão da mudança que o país sofreu neste século. Em 1900, os 76 milhões de americanos ocupavam um imenso campo agrícola isolado do mundo, com produto interno bruto          equivalente ao do Equador dos dias de hoje. Era um país de importância secundária na época em que o mundo vivia à sombra do império britânico, que chegou a dominar um quinto da superfície terrestre e um quarto de sua população.
    O poder da Inglaterra estava alicerçado numa folgada liderança militar. Graças a uma temível esquadra marítima, o país ganhou terreno como ninguém no século 19. No auge do domínio britânico, a Royal Navy era maior e mais eficiente que a soma das forças das duas outras
potências militares da época, Rússia e França. Com isso, a extensão do reino da rainha Vitória
adquiriu proporções inéditas. Nem mesmo os grandes impérios da Antiguidade, como o romano, mantiveram território tão vasto sob seu domínio. Os britânicos, porém, seriam os últimos a basear sua liderança numa política de expansão territorial. A virada do século e a fulminante ascensão dos Estados Unidos inauguraram um novo estilo de domínio. Sai de cena a guerra pela conquista de colônias, entra em jogo o poder econômico, cultural e tecnológico. 
Dois fatores transformaram o "arquipélago de tribos selvagens" em potência mundial. Em primeiro lugar, as duas grandes guerras. Enquanto a Europa saiu abalada dos conflitos, com
graves problemas econômicos e políticos, os Estados Unidos ficaram mais ricos e cresceram na
primeira metade do século.
              Em 1920, o censo americano registrava pela primeira vez a predominância da população urbana sobre a rural, símbolo do rápido processo de industrialização do país. Entre 1939 e 1945, o PIB americano dobrou. Ocorreu também uma formidável expansão industrial, com taxa de crescimento anual de 15% no mesmo período. Ao final da II Guerra, os Estados Unidos eram líderes na produção manufatureira e concentravam as maiores reservas de ouro do mundo.
              O segundo fator responsável pelo surgimento do colosso americano foi seu mercado interno, que absorveu o rápido crescimento industrial do país. Na primeira metade do século, os
Estados Unidos estavam produzindo mais que todas as outras potências da época. Sua indústria automobilística era nove vezes maior que a soma das fábricas da França, Grã-Bretanha e
      Alemanha. Dessa forma, diante de uma Europa exaurida, o país colocava-se naturalmente no centro da geopolítica mundial. Até o colapso do império soviético, é verdade, Washington dividiu a liderança econômica e ideológica mundial com Moscou. Mas, ao contrário dos rivais, os americanos sempre fizeram a opção certa nos momentos cruciais. 
              Quando a supremacia tecnológica começou a representar uma moeda de peso no jogo do poder, os Estados Unidos abriram suas fronteiras e atraíram os grandes cérebros internacionais.
              Além de criar um novo tipo de universidade, tomaram a frente na indústria de informática e outras áreas estratégicas do conhecimento. No campo ideológico, o país saiu vitorioso da
Guerra Fria, enquanto os soviéticos se esfacelaram em várias repúblicas e mergulharam numa profunda crise de identidade todo o mundo comunista. Por fim, na abertura da década de 90, momento em que todos apostavam que seu modelo de capitalismo estava decadente e prestes a ser engolido pelo Japão e pelos emergentes Tigres Asiáticos, os EUA deram a volta por cima. Com índice de crescimento médio de 7% nos últimos sete anos, consolidaram sua posição de império do século. 


 

UM QUINTO DA TERRA

Antes do domínio americano, quem mandava no mundo era a Grã-Bretanha, que viveu seu auge durante o reinado da rainha Vitória, de 1837 a 1901. Naquele tempo: 

  de cada 1 000 toneladas de carga transportada pelo Canal de Suez (controlado pela Grã-Bretanha), 700 eram britânicas, 95 alemãs e somente 2 americanas 
  a Marinha britânica era mais poderosa que as duas outras maiores forças juntas (Rússia e França)
  três quartos dos investimentos estrangeiros feitos no mundo eram britânicos
  a rainha Vitória dominou um quinto da superfície da Terra 
  um terço dos navios mercantes eram britânicos