Quando
as sombras da crise da Ásia espraiaram-se sobre o banco Garantia
- que sofreu perdas memoráveis, os olhos do mercado se voltaram
para Jorge Paulo Lemann, seu presidente.
Ex-díscipulo e competidor
permanente do Garantia, Luiz César Fernandes, do bem-sucedido Pactual,
me disse certa vez: "Se o Jorge Paulo quiser, ele vira o jogo em dois tempos.
Ele é o melhor de todos nós. Mas acho que ele não
quer".
Ex-campeão brasileiro
de tênis nos anos 60, ex-corretor falido nos anos 70, a partir dos
anos 80 Lemann deu início à maior aventura empresarial brasileira
do período. Se os anos 50 pertencem a Walther Moreira Salles, os
anos 60, a Amador Aguiar, e os 70, a Norberto Odebrecht, de 80 em diante
a face do capitalismo brasileiro foi Lemann.
Por quê, então,
o Garantia terminou?
Organização
O Garantia foi criado à
imagem de seu fundador, e repousava em dois pilares: o modelo da organização
e os valores internos.
Quanto à administração,
Lemann adaptou o que existia de melhor em termos de administração
participativa. Montou um processo de seleção que atraiu quadros
brilhantes que ganharam dinheiro e ajudaram Lemann a ficar mais rico ainda.
A argamassa que consolidava
o modelo era a perspectiva de ganhos, mas também um conjunto de
valores pessoais impostos pelo próprio Lemann. Entre eles, o desprezo
pelo supérfluo, pelo exibicionismo e pelo deslumbramento com a riqueza.
E uma obsessão por resultados.
Durante algum tempo parecia
que Lemann tinha conseguido montar uma organização nos moldes
das pioneiras Bradesco e Odebrecht - não coincidentemente de rígida
formação calvinista-, mas com uma rapidez em acumular riqueza
muito maior.
Mas as possibilidades de
ganho fácil e o deslumbramento yuppie do setor aparentemente foram
mais forte que os príncipios originais que nortearam sua fundação,
especialmente depois que Lemann passou a mudar seu ritmo de trabalho.
Nova
vida
Novo casamento, filho temporão,
ajudaram a humanizar a máquina de fazer dinheiro. Seu tempo não
era dedicado mais integralmente ao ofício de acumular riqueza, mas
também a viver. Sem sua presença permanente, os vícios
antigos do modelo começam a aflorar.
O primeiro problema do grupo
foi a política de novos investimentos. Nos períodos de inflação
alta, o diferencial entre a boa e a má administração
era a gestão financeira. Bastava adquirir boas empresas com conflitos
acionários ou gestão financeira frágil, colocar um
bom financeiro para virar o jogo e valorizar a nova companhia.
Quando percebeu que a estabilização
era questão de tempos, acabando com os ganhos fáceis no cassino
do câmbio, juros e Bolsas, o Garantia definiu uma política
de aquisição de controles de grandes empresas nacionais,
criando uma nova empresa, a GP Investimentos. Lemann acabou dividindo a
organização em dois grupos, que jamais se suportaram: a GP
Investidores e o banco.
Logo no início, dois
discípulos se destacaram, credenciando-se à sua sucessão:
Marcel Telles e Beto Sicupira. Telles foi para a Brahma; Sicupira, para
a Lojas Americanas e depois para GP Investimentos. Os problemas começaram
ai.
Marcel, visivelmente mais
brilhante e carismático, fez da Brahma o sucesso que é hoje.
Sicupira, mais agressivo externamente, mas intimamente inseguro - na opinião
de um ex-sócio -, não foi bem sucedido em sua área.
Lojas Americanas foi um furo na água, e a GP Investimentos não
possui nenhuma empresa com resultados positivos. Ferrovias, Playcenter,
Artex, entre outros, requerem contínuos aumentos de capital e não
prometem retornos no médio prazo.(Lojas Americanas e Brahma pertencem
exclusivamente aos três).
Novos
valores
Aos poucos, a fantasia milionária
criada por Jorge Paulo e efetivamente implementada para a Segunda geração
- como explica o ex-sócio - não foi passada adiante. Pelo
contrário, passou a ser comum sócios jogarem contra o próprio
banco.
Ninguém dentro da
GP Investimentos ou das companhias das quais ela detém o controle
jamais ganhou dinheiro e a rotatividade é enorme. Internamente,
o elogio preferido de Sicupira é: "Esse cara é do mal!",
denotando a busca de resultados a qualquer preço.
Essa política levou
a uma deterioração da imagem da organização
em processos de reestruturação dos quais participou, pela
tática de não conferir tratamento isonômico aos demais
sócios. Ou de se aproveitar da situação de fragilidade
das empresas a quem competia a ele reestruturar.
Por seu lado, a "jovem guarda"
do banco também não seguiu os príncipios calvinistas
do líder Lemann. Em dia de trabalho os funcionários andam
de Gol e calças jeans. À noite, ostentam BMVs e Porsches.
A incoerência demonstrava que os valores originais do Garantia já
não eram os mesmos. A crise da Ásia apenas deflagrou esse
processo de reavaliação da imagem do banco.
O mercado quer saber, agora,
para onde irá Lemann. Se resolver empreender sozinho, voltará
a dar o que falar. O velho tigre já não tem a garra dos primeiros
tempos. Mas conserva incólume a majestade. |